ARISTIDES de SOUSA MENDES

  Depois da entrada anterior é imperativo que eu deixe aqui um tributo ao

MELHOR PORTUGUÊS DE SEMPRE!…

 

 

!…Aristides de Sousa Mendes…!

http://www.rivkah.com.br/tradicoes/aristides/aristides.htm

 

  O RABINO KRUEGER

 _Na Polónia já estou acostumado ao anti-semitismo e não me espanta que, no outro lado, na Alemanha, Hitler tome o poder. Pelas ruas de Berlim judeus são perseguidos, espancados e mortos – é o que nos escrevem, é o que nos dizem, é o que lemos, oi gewalt. O meu nome é Chaim Krueger e sou rabino numa klein statle, num pequeno povoado. “A guerra é inevitável”, prevejo, “e em breve os nazis estarão aqui”. Não é fácil mas, com economias feitas penosamente, com a minha mulher e as nossas seis crianças, em 1938 conseguimos escapar de Varsóvia para Bruxelas.

 Em 1939 os alemães invadem a Polónia e, logo a seguir, os Países Baixos. Com a minha família, outra vez estamos em fuga. Chegamos a Paris mas logo abalamos para sudoeste porque os alemães já estão a invadir a França. Milhares, dezenas de milhares de refugiados, judeus e outras minorias, pejam os caminhos; são antinazis franceses e belgas e holandeses e checos e alemães, também algumas famílias ciganas. Uma, ou duas vezes por dia, caças alemães mergulham em voo picado sobre as estradas e metralham os caminhantes. Há dezenas de mortos nas bermas, todos eles ensanguentados. Ainda ouço os gritos, choros, lamentações, oi wais mir. Quis Deus que eu, e os meus, tenhamos escapado sempre ilesos, graças a Deus, dank main Got.

 Para fugir à hecatombe, agora a nossa esperança é chegar à fronteira, atravessar a Espanha, entrar em Portugal e dali embarcar para América, onde parentes nossos esperam por nós.

 Chegamos a Bordéus em Maio de 1940 e a cidade está repleta de fugitivos. Procuro o Consulado espanhol para obter o visto no passaporte da minha família mas um funcionário diz-me que sem antes obter o visto português não conseguirei o espanhol. Saio meio atordoado com a informação, não entendo o que se passa. Cá fora um francês, também ele refugiado e, ao que suponho, comunista, explica-me:

 – Rabi, Franco foi ajudado pelos nazis durante a guerra civil espanhola. É por isso que não quer no seu território fugitivos do nazismo. Só os deixa passar se forem rumo a Portugal. Salazar, o primeiro ministro português, está entalado. Portugal tem uma aliança antiquíssima com a Inglaterra e um pacto recente com a Espanha. Se hoje pender para os Aliados, será invadido pelos alemães através de Espanha. Se pender para os alemães, a Inglaterra desembarcará tropas em Portugal. É claro que a simpatia do fascista Salazar vai para Hitler. Mas tem que fingir uma estrita neutralidade para evitar a intervenção quer do Eixo, quer dos Aliados. Por isso estou em crer que Salazar  lava as mãos e vai impedir a entrada de refugiados em Portugal. Aliás o Dr. Mendes já me disse que tem enviado centenas de telegramas para Lisboa, pedindo autorização para dar vistos e até agora não obteve qualquer resposta.

 – Quem é o Dr. Mendes?

 – É o Cônsul de Portugal em Bordéus, Dr. Aristides de Sousa Mendes.

 – Mendes, Mendes… O nome bate-me nos ouvidos, reconheço-o, é marrano, é judeu. Tenho que falar com o Dr. Mendes.

 Dirijo-me ao Consulado de Portugal. O jardim e as ruas vizinhas estão repletas de refugiados, todos a aguardar vistos para seguirem viagem, são milhares em desespero. Identifico-me, peço para falar com o Dr. Mendes. Três horas depois sou recebido. É um cavalheiro muito distinto, porém com feições angustiadas. Deve estar a viver uma grande tragédia, bem posso imaginar qual seja ela. Apresento-lhe a minha mulher e os meus filhos, conto-lhe do nosso êxodo de Varsóvia até Bordéus. Entende o meu sofrimento porque também ele tem muitos filhos, acho que doze. Convida-nos a pousar em sua casa para darmos algum descanso às crianças. Aceito, agradeço e pergunto-lhe se também ele é judeu. Sorrindo, esclarece:

 – Rabi, não se iluda com o meu apelido Mendes. Até onde eu posso rastear, a minha família, há pelo menos cinco gerações, é de católicos fervorosos. Se, por acaso, tivemos um ancestral judeu, não é nada que nos desmereça, mas disso não temos conhecimento.

 Errei o alvo, main mazle, má sorte a minha,… Não sei como continuar a conversa. Engasgo-me. Depois ouso perguntar-lhe quando podemos contar com os vistos para seguir viagem para Portugal. Acabrunhado, diz-me que nada pode garantir, ainda não tem a necessária autorização do seu Governo.

 – Então, Dr. Mendes, vamos ficar aqui em Bordéus à espera da matança?

 Levanta-se. Amargurado, segura-me o braço.

 – Rabi, tenha fé, nem tudo está perdido, confie na Divina Providência.

 Conduz-nos a sua casa, que fica no Quai Louis XVIII, por trás do Consulado. Apresenta-nos à sua esposa, D. Angelina, e a três dos seus filhos mais velhos. Indica os aposentos que nos destina. Deseja-nos um bom descanso. Apesar de gentio, apesar de goi, este Dr. Mendes is a Mensche, é realmente um Homem.

 

 TENHO SEDE!

 Não consigo dormir, viro-me para a esquerda, viro-me para a direita, ora tenho frio, ora calor, ora me tapo, ora destapo. Vivo em Bordéus e de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 Febre? Talvez acesso da malária que apanhámos em Zanzibar, tu, eu, os nossos filhos. Ou talvez as sezões que antes eu apanhara em Demerara, na Guiana Francesa. Estou em crer que o paludismo já mordeu a minha alma. Tenho pressa, tenho sede. Que horas são? Angelina dá-me água.

 Estou sempre a zanzar de um lado para o outro, na cama e na vida. A diplomacia tem destas coisas, não dá tempo para um homem assentar e deitar raiz. Será por isso que eu torno sempre às mais profundas. Em 1908 tentaram cortá-las, no Terreiro do Paço mataram-me el-Rei D. Carlos, também o príncipe herdeiro. Lesa-majestade, lesa-vida… Dois anos depois o 5 de Outubro, bandeiras republicanas são içadas, já definha a História pátria. E agora, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 Não gosto que me entalem o lençol no colchão, até parece que estou dentro de uma camisa de forças. De mãos dadas, livres corríamos… Em Cabanas de Viriato tenho um palácio mandado levantar pelos fidalgos meus ancestrais, é a Casa do Passal. Dela, de manhãzinha, de mãos dadas saíamos a correr, saltávamos de fraga em fraga. Tinhas 15 anos e eu 18. Lembras-te ó prima, ó namorada, ó prometida? Quanto mais prima, mais se lhe arrima, diz o povo e tem razão. A vila de Nelas fica ali além e o rio Dão corre lá mais em baixo. É só atravessá-lo para chegarmos a Viseu. No lado oposto, atrás de nós, a Serra da Estrela, a soberana, domina toda a paisagem. Inocência e liberdade, nós a correr, bem me lembro, quisera eu regressar aos tempos que já foram… Porém, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 Insónia. Sinto o calor do teu corpo, vontade minha é outra vez fazer amor contigo. Porém temo engravidar-te, catorze vezes já pariste em sangue e sofrimento, expiação do pecado original, filha de Eva que tu és. E não devo refrear-me porque é pecado, devo ser tal como Deus me fez. Além do mais a nossa união foi consagrada pela Santa Madre Igreja, criai-vos e multiplicai-vos. Se, por causa de nossos pais Adão e Eva, fomos expulsos do Paraíso, cumpra-se então o destino que Deus nos traçou. Refrigério para o teu martírio será aleitares mais outra criança que virá para alegrar as nossas vidas. Contudo temo que toda esta inquietação esteja a perder sentido. Temo que já tenhas alcançado a menopausa embora, por vergonha, não o confesses. E se isso realmente aconteceu, o teu silêncio converte o nosso desejo em luxúria e pecadores nos tornamos, é a radical tentação da carne, penitência, penitência, mea culpa, tenho a casa cheia de imagens do Senhor e da Virgem que foi a sua Mãe. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 Há por aqui um mosquito que não me deixa dormir. César é o meu irmão gémeo. Juntos, íamos tomar banho no rio Dão. Juntos, cursámos Direito na Universidade de Coimbra. O nosso pai é juiz. Mas César e eu optámos pela diplomacia, não pela magistratura ou advocacia. Até nas carreiras somos gémeos. Tomámos o caminho errado? Creio que sim, somos monárquicos e, com a implantação da República, passámos a ser descriminados. Fui Cônsul na Guiana Francesa, 1 ano; em Zanzibar, África britânica, 7 anos. Ali estou sempre doente, também a minha mulher e os meus filhos, paludismo. Peço para me transferirem. No Palácio das Necessidades de Lisboa, que é o Ministério dos Negócios Estrangeiros, finalmente atendem o meu pedido e mandam-me para o sul do Brasil, sou nomeado Cônsul em Curitiba. Estamos em 1919, tenho 34 anos. Só por causa das minhas convicções monárquicas o novo Governo de Sidónio Pais, sem mais nem menos, suspende-me de funções. Consequências: inactividade, redução brutal de vencimentos e família cada vez maior. É o limiar da miséria, é o desespero. Na Embaixada portuguesa no Rio de Janeiro, César é o Encarregado de Negócios, felizmente. Movimenta-se, consegue que 34 prestigiados cidadãos portugueses, residentes em Curitiba, subscrevam um “protesto contra uma campanha miserável movida contra o Cônsul português por criaturas sem vislumbre de senso moral”. A iniciativa de César dá resultado: no final do ano suspendem a suspensão. Mas continuo sob mira e alvo não quero ser. Tudo se agrava, de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições.  Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 Não quero travesseiro, já me basta a almofada. 4 anos mais novo do que eu, em Santa Comba Dão, no nosso distrito de Viseu, nasceu homem que vai dar muito que falar, estou em crer. Também ele cursou Direito na Universidade de Coimbra mas depois optou por Economia e Finanças, não pela Diplomacia. Em 1910, em Viseu, no Colégio do Cónego Barreiros, durante a sua conferência sobre a “Educação da Mocidade”, ele disse: “A vontade deve ser educada no amor a Deus e ao próximo, no amor à família, à honra e à dignidade, ao trabalho e à verdade”. Estou de acordo. Este moço pode vir a ser uma barreira contra a falta de escrúpulos que submerge a nação. O seu nome? António de Oliveira Salazar. Um dia será alçado a lugar cimeiro do país, prevejo. Mas quando é que ele vai assumir o poder para nos salvar? Tenho pressa, tenho sede, Angelina dá-me água.

 

 Este cobertor felpudo é muito quente, trato de empurrá-lo para os pés da cama. Não me deixam ficar em Curitiba, não lhes convém, a colónia portuguesa está bem ciente da perseguição que me fizeram. Mandam-me para Cônsul temporário em S. Francisco da Califórnia. Temporário é equivalente a vencimento reduzido e, em dois anos, nascem mais dois filhos meus. Outra vez o limiar da miséria, o desespero. Depois mandam-me novamente para o Brasil. Em Agosto de 24 sou Cônsul em S. Luís do Maranhão, no norte. E em Dezembro estou a gerir interinamente o Consulado de Porto Alegre, no extremo sul. “Interinamente” é eufemismo de “corte nos vencimentos”… Cansam-me estas viagens, estas deslocações sucessivas, mas o pior de tudo é a falta de dinheiro. Além do mais, de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Mas não cedo, não renego, a causa monárquica também é minha, antes quebrar que torcer. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Abafado, já a suar, vontade minha é desfazer-me do pijama, é ficar nu, mas isso não é distinto, não fica bem a um chefe de família. Em 1926 estou outra vez em Lisboa, presto serviço na Direcção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares. A 28 de Maio ocorre o golpe do General Gomes da Costa, é a Ditadura Militar. Para surpresa minha, em Março de 27 sou nomeado Cônsul em Vigo, na Galiza, cargo de muito prestígio. Um amigo meu, funcionário interno do Palácio das Necessidades, diz-me que fui escolhido “por motivo de confiança”, pois o regime militar vê em mim “o funcionário próprio para inutilizar os manejos conspiratórios dos emigrados políticos contra a Ditadura”. Os militares foram gentis, fizeram-me justiça mas estão equivocados a meu respeito: não sou um denunciante, pedras eu não atiro, nem a primeira, nem a segunda, nem qualquer outra. Que horas são? De Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Sonhar, às vezes é antecipar. Em 1928  Salazar  sobe à ribalta, é ele o novo Ministro das Finanças da Ditadura Militar. Com o auxílio do exército impõe novas contribuições, veta despesas públicas, alcança o equilíbrio do orçamento, liquida a dívida flutuante e estabiliza a moeda. Já ninguém consegue arredá-lo, ou ele ou a bancarrota. Em 1930 acontece o óbvio: Salazar de Ministro das Finanças galga a Presidente do Conselho de Ministros. Talvez possa agora restaurar a monarquia. Poderia, lá isso poderia… Poderia mas não quer pois, sem estirpe nem coroa, quem está a converter-se em soberano absoluto é o próprio Salazar metamorfoses. Ilusão, triste ilusão a minha e agora, de Lisboa, acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

Daqui a pouco vou precisar do robe, acho que o deixei aos pés da cama. Não correspondo às expectativas dos militares mas eles continuam a prestigiar-me, não sei porquê. Em 1929 nomeiam-me Cônsul em Antuérpia, na Bélgica. Ali permaneço durante 9 anos. Com apenas 50 anos já sou o decano do corpo diplomático. O rei belga, Leopoldo III, simpatiza muito comigo, por duas vezes me condecora. Mas em 38 sou nomeado Cônsul em Bordéus, França. Peço para ser mantido em Antuérpia, cidade onde fiz tantos amigos. Salazar para minha consternação, recusa o pedido e sigo para Bordéus. De Lisboa acabo de receber más notícias, proibições. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 

 De outras vezes o sonho converte-se em pesadelo, ânsias, ao acordar a minha apetência é gritar. Em 39 rebenta a II Guerra Mundial. Os alemães invadem a Polónia e os Países Baixos e a França, Paris é ocupada. Depois a horda ariana começa a descer para sul e sudoeste, vêm aí os assassinos! Milhares e milhares de refugiados de guerra acampam nos jardins do Consulado e nas ruas vizinhas. Franceses, belgas, holandeses, checos, austríacos e até alemães. Judeus mas também cristãos. Querem vistos para o meu país, querem vistos para a Vida. Mas de Lisboa acabo de receber más notícias, proibições: com a Presidência do Conselho, Salazar acumula agora a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros e proíbe que se passem vistos a refugiados de guerra, principalmente a israelitas. Outra vez me desilude o moço de Santa Comba. Diz-se católico mas esqueceu-se do amor ao próximo que Jesus apregoava e praticava para exemplo de todos os fiéis. Que faço eu? Acato a ordem do Presidente do Conselho? Impassível, vou então ficar à janela a assistir à matança dos inocentes? Não, não e não! Não sou cúmplice da chacina, vou desobedecer a Salazar vou passar os vistos e salvar os perseguidos. Prefiro estar com Deus contra um homem, do que estar com um homem contra Deus. Que horas são? Tenho sede, Angelina dá-me água.

 ViSTOS PARA A VIDA

 É um espanto, este Dr. Mendes. Na manhã do dia 17 de Junho de 1940 avisa-me:

 – Rabi, sossegue, vou passar vistos a toda gente.

 Nos dias 17, 18 e 19, ele e dois dos seus filhos mais velhos trabalham sem parar, nem sequer para almoçar ou jantar, exaustão. Passam milhares e milhares de vistos, os refugiados já organizados em filas. Os passaportes são colectivos, familiares. No meu constam oito nomes, o meu, o da minha mulher e os dos meus filhos. Assim acontecendo com quase todos, calculo que o Dr. Mendes, nesses três dias, tenha passado uns 30 mil vistos, dos quais 10 mil a judeus, pelo menos.

 Não se dá por contente. Obedecendo às instruções que recebera de Lisboa, o Cônsul de Portugal em Bayonne recusa-se a passar vistos aos refugiados de guerra. Porém o Dr. Mendes é seu superior. Desloca-se a Bayonne, que fica junto da fronteira franco-espanhola, e é ele-mesmo quem, mais uma vez, passa milhares de vistos.

 O mesmo acontece com o Consulado de Portugal em Hendaye. Também aí o Dr. Mendes passa milhares de vistos.

 No dia 24 de Junho o Dr. Mendes mostra-me e traduz-me um telegrama que acabara de receber. É chamado imediatamente a Lisboa e acusado por Salazar o Primeiro Ministro português, de “concessão abusiva de vistos em passaportes de estrangeiros". Depois de 32 anos de serviço, o Dr. Mendes vai ser demitido sem receber qualquer reforma ou indemnização, e 12 filhos tem ele para criar. Já teve 14, mas morreram 2, o segundo e o último, se não estou em erro. Cuidar de 12 filhos é obra! Eu que o diga, que só tenho 6 e bem sei como custa criá-los. Compadeço-me, voz embargada, ihre mazle, má sorte a sua. Mas é ele quem atalha, quem me anima:

 – Rabi, se tantos judeus sofrem por causa de um demónio não-judeu, também um cristão pode sofrer com o sofrimento de tantos judeus…

 A grosse Mensche, um grande Homem!

SALAZAR NÃO PERDOA

O meu nome é Schmil Goldberg. Mas, se quiserem, podem tratar-me por Samuel. Sou judeu e americano. Em 1941 estou em Portugal para dar assistência a refugiados de guerra, trabalho voluntário. Na Cozinha organizada pela Comunidade Israelita de Lisboa tenho a oportunidade de conhecer o Dr. Aristides de Sousa Mendes. Foi ele o diplomata, o Cônsul que, em França, passou milhares e milhares de vistos a judeus fugidos do nazismo. Uns já partiram para a América, outros ainda estão em Portugal. Também prestamos auxílio ao Dr. Sousa Mendes, pois ele e a família estão muito carenciados. Foi demitido, não recebe qualquer pensão do Governo e, apesar de licenciado em Direito, está proibido de exercer a advocacia e os seus filhos foram impedidos de frequentar a Universidade. O seu irmão, que era embaixador, também foi demitido. Vê-se que Salazar jamais perdoará o gesto humanitário do Dr. Sousa Mendes. Num povoado do Distrito de Viseu, o ex-Cônsul possui um palácio onde chegou a albergar muitas famílias de refugiados, às quais, em França, passara vistos para entrada em Portugal. Mas, para atender às necessidades da sua numerosa família, foi obrigado a hipotecar todo o recheio. O Dr. Sousa Mendes já não dispõe de meios financeiros para sobreviver, está condenado à miséria. Temos o dever de auxiliá-lo e auxiliamos. Até lhe proporcionamos condições para que alguns dos seus filhos emigrem para os Estados Unidos e Canadá. Os que lá se estabelecerem mandarão cartas de chamada para os outros, estou certo disso.

RECLAMAÇÃO

  Em 1945, terminada a guerra, desaparecem os condicionalismos políticos que desaconselhavam a reapreciação do meu processo. Envio carta ao Presidente da Assembleia Nacional. A mim me referindo na 3.ª pessoa, reclamo:

«Tendo-lhe sido enviadas instruções pelo ministro dos Negócios Estrangeiros sobre vistos em passaportes, essas instruções continham na 1ª alínea a proibição absoluta de os dar aos israelitas, sem discriminação de nacionalidade.

Tratando-se de milhares de pessoas de religião judaica, de todos os países invadidos, já perseguidas na Alemanha e noutros países seus forçados aderentes, entendeu o reclamante que não devia obedecer àquela proibição por a considerar inconstitucional em virtude do art.º 8.º n.º 3 da Constituição, que garante liberdade e inviolabilidade de crenças, não permitindo que ninguém seja perseguido por causa delas, nem obrigado a responder acerca da religião que professa, medida que aliás se lhe tornava necessária para saber a religião dos impetrantes, e assim negar ou conceder o visto.

Nestes termos, se o reclamante não obedeceu à ordem recebida do Ministério, não fez mais que resistir, nos termos do n.º 18 do art. 8º da Constituição, a uma ordem que infringia manifestamente as garantias individuais, não legalmente suspensas nessa ocasião (art.º 8.º, n.º 19).

E não se pretenda que a inviolabilidade de crenças não é, segundo a Constituição, um direito para os estrangeiros visados, por não se acharem residindo em Portugal, único caso em que poderiam ter os mesmos direitos que os nacionais (do art.º 7.º) pois não se trata no caso presente de um direito dos estrangeiros mas de um dever dos funcionários portugueses, que nem em Portugal nem nos seus Consulados, também território português, poderão sem quebra da Constituição interrogar seja quem for sobre a religião professada, para negar qualquer acto da sua competência, o que a admitir-se significaria odiosa perseguição religiosa, mormente quando se impunha o direito de asilo que todo o país civilizado sempre tem reconhecido e praticado em ocasiões de guerra ou calamidade pública.»

Concluo:

«Não alegou na resposta que deu no mesmo processo disciplinar estas circunstâncias, pelo motivo de, lavrando a guerra na Europa, não querer dar publicidade e relevo a uma atitude, por parte de funcionários do Estado, que sobre ser inconstitucional poderia ser interpretada como colaboração na obra de perseguição do governo hitleriano contra os judeus, o que representaria uma quebra da neutralidade adoptada pelo governo.

Não pode porém suportar a evidente injustiça com que foi tratado e conduziu ao absurdo, a que pede seja posto rápido termo, de o reclamante ter sido severamente punido por factos pelos quais a Administração tem sido elogiada, em Portugal e no estrangeiro, manifestamente por engano, pois os encómios cabem ao país e à sua população cujos sentimentos altruístas e humanitários tiveram larga aplicação e retumbância universal, justamente devido à desobediência do reclamante.

Em resumo, a atitude do Governo Português foi inconstitucional, antineutral e contrária aos sentimentos de humanidade e, portanto, insofismavelmente “contra a Nação”.

Pede deferimento (a) – Aristides de Sousa Mendes »

 

  P.S. – Não recebo qualquer resposta… Estou pois, definitivamente, condenado à miséria e à desonra.

 

HOSPITAL DA ORDEM TERCEIRA

Lisboa, 3 de Abril de 1954. Estou no Hospital da Ordem Terceira, na Rua Serpa Pinto. Abro a mala, retiro o lenço, enxugo os olhos. O meu tio, Dr. Aristides de Sousa Mendes, acaba de falecer, trombose cerebral agravada por pneumonia. A sua esposa, a minha tia Angelina, morreu em 1948 com uma hemorragia cerebral e ficou vários meses em coma, coitada. Todos os seus filhos, meus primos, vivem hoje nos Estados Unidos e no Canadá, conseguiram escapar a tempo deste purgatório… Sou eu a única familiar presente. O meu tio era um homem bom, sempre a pensar no bem dos outros. É por isso que morre pobre e desonrado

 

MEMÓRIA

1. Em 1967, em Nova Iorque, a Yad Vashem, organização israelita para a recordação dos mártires e heróis do Holocausto, homenageia Aristides de Sousa Mendes com a sua mais alta distinção: uma medalha comemorativa com a inscrição do Talmude «Quem salva uma vida humana é como se salvasse um mundo inteiro». A Censura salazarista impede que a imprensa portuguesa noticie o acontecimento.

2. Encorajada com a homenagem de Israel, Joana Sousa Mendes, filha de Aristides, em 1969 escreve ao Presidente Américo Tomás a pedir a reabilitação da memória do seu pai. Não obtém qualquer resposta.

 

3. Em Portugal, o “caso” Sousa Mendes só vem a público em 1976 com um artigo de António Colaço no Diário Popular. Tema retomado em 1979 por António Carvalho num outro artigo em A Capital.

 

4. Ainda em 1979 o Presidente Mário Soares concede, a título póstumo, a Ordem da Liberdade a Aristides de Sousa Mendes.

 

5. Em 1988, depois de muitas resistências do Antigamente infiltrado no Abril, a Assembleia da República e o Governo português, pressionados pelos filhos de Sousa Mendes e pelos americanos (entre estes o congressista Tony Coelho), finalmente procedem à reabilitação do Cônsul.

 

6. Após a morte de Aristides foram executadas as hipotecas do recheio da Casa do Passal.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

8 thoughts on “ARISTIDES de SOUSA MENDES

  1. BOM DIAAAAA MARI…MINHA AMIGA TUDO BEM?
    OBRIGADA PELA VISITA, JÁ MUDEI O ROSA, AGORA ESTA VERDE E VERMELHO LOL
    ACHEI ESSA TUA ENTRADA MUITO INTERESSANTE, QUANTA COISA AI PARA LER!
    AQUELA BEIJOKA BOA DE SEMPRE,
    FICA BEM!!!
     

    Deus não trabalha na ansiedade do homem.As coisas acontecem na hora certa! As coisas acontecem exatamente quando devem acontecer! Leia a primeira linha com atenção. Se Deus trouxe isto a você, Ele lhe trará algo através disto!Momentos felizes, louve a Deus. Momentos difíceis, busque a Deus.Momentos silenciosos, adore a Deus. Momentos dolorosos, confie em Deus. Cada momento, agradeça a Deus. " Eh como pérola escondida no mar…a tua vida eh um tesouro que soh DEUS sabe cuidar…"COM CARINHO,
     
    ANNA

  2. Aristides de Sousa Mendes e outros nao mereciam ser enxovalhados  que alguns figuroes lhe fizeram elegendo o velho ditador! junto-me a ti nessa merecida homenagem bj vitorio

  3. Querida Mari
     
    Mais uma vez obrigado por trazeres à ribalta a vida de altas personaliades, e particularmente a deste Homem de uma envergadura moral única.
     
    Grande Homem, grande figura, grande Herói, cujo exemplo deveria ser apontado aos nossos jovens como paradigma para a vida, e cuja biografia deveria constar obrigatoriamente nos compêndios de leitura das nossas escolas, par ajudar a formar cidadãos com os autênticos valores morais, de liberdade e humanidade.
     
    Um Grande Português, daqueles que ainda nos fazem orgulhar de o sermos  também.
     
    Honra à Sua Memória.
     
    Obrigado Mari.

  4. Olá Princesa, espero te encontrar bem, se não te importares anexo este video ao teu excelente trabalho.
    Desejo-te um excelente fim-de-semana.
    Um abraço,
    AF

  5.  
    “Rascunhos & Sentimentos” tem o prazer de vos apresentar o “Poeta da Semana”. 
     
     
    Robison Crosue
     
    "Sonhador"
     
     
    Entre e sinta-se á vontade, junte-se a nós, comente e faça desta iniciativa a sua casa.
     
    Desfrute
    Das palavras que escrevem…
    Dos sentimentos que desvendam…
     
    Seja bem-vindo!
     
     
    “Rascunhos & Sentimentos”

  6. ciao
    un breve passaggio
    per lasciarti un salutino
    e già che ci siamo
    buon weekend!!!
    te quiero!
    te quiero!
    te quiero!
    te quiero!
    te quiero!
    te quiero!
    te quiero!
    un dolce bacetto
     <<Per te da LadyA>>
     

    LadyA
      

  7. ciaooooo
    un veloce saluto per augurarti una
    buona giornata e un buon inizio di settimana
    un dolce bacetto
     
    Fantastica notte, romantica, strabiliante, tutto tace. Solo il cuore all\’unisono con le stelle quello che non vuol vedere sparisce nel nulla. Ci sei solo tu, con i sogni, e tutto ti è permesso: i pensieri, le emozioni, solo queste in una notte fantastica.
    Anna De Santis
     <<Per te da LadyA>>
     

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s