A CASA do MONTE

 

                                                                                                              

 

É um refugio onde se acorda de manhã com o chilrear dos pássaros, onde nem se dá pelo passar das horas e onde ainda se deixa a chave na porta 

É uma casa humilde, como humildes eram os meus avós. Mas é um local onde impera a paz e o sossego!…

Gosto de cá vir… aqui  retempero forças!!!

Está um dia quente. O carro marca 38º C… Mal chego, bebo água fresca e descanso um pouco. Como só cá estou hoje, não tenho muito tempo para esperar que o calor abrande. Apetece-me um figo da Índia…  Pego numa lata de zinco, que em tempos serviu para tirar água do poço e numa tenaz. Desço o carreiro até à Figueira da Índia mais próxima. Em tempos vi-os à venda no Continente a 18 euros o quilo, sim 18 euros… Não sei de onde vêm, mas aqui ninguém os aproveita a não ser num “ matar de desejo” que é o caso.

Encho a lata bem apinhada e deito-os na areia onde “sabiamente” lhes retiro os picos muito finos, mas agressivos. Depois, cumprindo o ritual, lavo-os e coloco-os no banco de pedra para secarem do excesso da água. Coloco-os no frigorífico para arrefecerem…" Quentes, fazem mal à barriga" – dizia a minha avó Isabel.

 

Estes bancos de pedra, construídos nas fachadas das casas, tinham muitos fins…serviam para a secagem de frutos, descanso das caminhadas, pousar dos cântaros, contemplação do céu estrelado ao fresco da noite… Gosto de me sentar neles ao cair da tarde e noite dentro. Trazem-me lembranças dum passado longínquo.  Ali, ao relento, na noite de um distante verão ouvi muitas histórias contadas pelo meu tio Vanderdil ( Parece um nome estranho, mas não é se eu vos disser que o Padrinho foi veterano da 1ª  Grande Guerra em França ). Este meu tio era o irmão mais novo do meu pai.  Ainda hoje me lembro de muitas coisas que ele me ensinou e… eu tinha apenas 5 anos quando ele morreu aos 35 anos de idade. Ensinou-me a coaxar como a rã e a cantar como a perdiz, ensinou-me a contar até 20…e ensinou-me o Jogo das Pedrinhas… ensinou-me muitas outras coisas que, na minha memória de menina,  se perderam.

Nem tudo são boas recordações… quando regresso ao passado.

Um dia, vi trazerem-no inerte em cima duma égua. Ainda hoje consigo visualizar toda essa dramática cena. Eu adorava o meu tio Vanderdil… Ele foi a primeira grande perda da minha vida.

Descobri que o coração da gente se cansa de bater e pára…tinha apenas 5 anos!

 

                                        

A nova fachada da casa, com barras de azul alentejano!  Acabadinha de pintar … Deixo que ponham tudo ao gosto deles. Gostam de lá ir passar os dias de folga, caminhar, pedalar, descobrir… Deram uso aos cântaros, aos alguidares de barro, aos chocalhos, às esparrelas para pássaros, às panelas de barro, às trempes e aos candeeiros a petróleo,etc… trouxeram para a luz do dia toda a tralha que encontraram na despensa. Mas eu não me importo que eles ponham a casa ao gosto deles.
O forno é que eu preciso de cuidar, recuperar, caiar… É um forno comunitário, pertenceu a 4 famílias cujos herdeiros ainda vivem… uma delas, sou eu.

Vai ser a minha próxima preocupação!…

 

O amor ao monte, permanece nos meus filhos.

Consegui transmitir-lhes isso…

Fico FELIZ!…

 

http://alcariaalta.blogspot.com

 

 

 

6 thoughts on “A CASA do MONTE

  1. Boa noite Mari, Nem calculas!…Como fiquei feliz ao ler,esta tua "Crónica"; Dou-lhe, esta designação…Porque sei que, saiu das tuas Mais profundas Lembranças. É, singelo, é enternecedor enfim… É lindo; Bela, a ênfase com que descreves esses momentos Maravilhosos da tua infância, da tua puerícia, de todos aqueles Detalhes que nos marcam para toda a nossa existência. Fez-me Lembrar meu querido Pai!…Que, com as suas calejadas mãos Plantou e fez produzir com um Néctar com o qual aida hoje me Regalo e, a cada gole, me embalo com a doce lembrança daquele Olhar carinhoso que me transmitiu todos os valores que hoje me Servem de Baluarte para enfrentar todos os desafios que possam Surgir. Acontece-me, frequentemente, sentir a necessidade de acariciar Aquelas parras como se do meu Velho se tratasse! Fica Bem Minha Amiga! Abraço! Apolinário

  2. Mari gostei tanto, fizeste uma descriçao tão boa, bonitaque até eu gostei desse teu sitio.Beijinhos e que saudades da casa dos meus avós!Abraço e uma boa semana.

  3. Linda, Mas que gira entrada…dai por mim a imaginar este teu monte….e os sentimentos que nele viveste………Deixo-te uma grande grande beijoca!!

  4. Deliciosa a tua descrição desta casa do monte…!Segui-te, passo a passo, nessa abertura de alma e memória e, embora nunca tenha tido uma casa do monte, sei bem do que falas e, sobretudo, sinto o que transmites…Somos nós e os nossos filhos os herdeiros de uma memória – bem real, afina! – desse legado que outros fizeram questão de nos deixar. Respeitemos a sua memória – as suas memórias – e façamos dela uma das razões para que o nosso coração não páre de bater… cansado!Estive nesse imenso e adorado Alentejo… regressei… já estou com saudades… e voltarei, proximamente!Um excelente fim de semana, continua a tratar assim tão bem as tuas memórias e recebe um beijo de carinho e admiração!

  5. Querida amiga, que delicada lembrança de sua infancia, pude sentir como se estivesse la, tamanha sensibilidade em sua narrativa, não é sem motivo essa doçura de pessoa que é você , beijo de sua amiga brasileira, Cláudia

  6. Que maravilha, olhar essa casinha, que me fez tanto lembrar a minha infancia, quando as férias eram tao desejadas, para junto com meu irmao e primos corrermos para o monte, para a casa de meus avós, em tudo semelhante com essa. Infelizmente para mim, disso nada resta, nem mesmo a casinha, transformada por um dos herdeiros numa casa comum, sem personalidade. Felizmente ainda há quem possa reviver essa vida simple mas tao deliciosa… Parabens por isso e tudo de bom minha Amiga… Beijo, Helena

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